Flávio Bolsonaro defendeu policial acusado de matar Ana Clara Machado, menina de 5 anos

Bolsonaro Ana Clara

Trajetória do senador inclui voto contra restrição de armas a policiais denunciados por violência doméstica e condecorações a homens posteriormente associados a milícias.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, reúne em sua trajetória a defesa judicial de policiais acusados de homicídio, homenagens a agentes investigados e posições contrárias a medidas de controle das forças de segurança. Entre os episódios está seu voto, em 2009, contra uma proposta que permitia recolher armas de policiais denunciados por violência doméstica.

Naquele ano, quando era deputado estadual pelo PP, Flávio foi o único parlamentar da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a rejeitar o projeto de Inês Pandeló (PT). Fundamentada na Lei Maria da Penha, a proposta autorizava a retenção preventiva do armamento institucional de servidores da segurança denunciados por agressões contra mulheres. Aprovada e sancionada, tornou-se a Lei Estadual 5.402/2009.

Ao explicar seu voto, Flávio argumentou que policiais poderiam perder a arma de trabalho por acusações de esposas ou ex-esposas sem terem assegurados seus direitos de defesa. Sustentou que militares frequentemente não recebiam as garantias da presunção de inocência e do contraditório.

Na campanha de 2026, o senador apresenta propostas de aumento das penas para agressores e de monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica.

A defesa no caso Ana Clara

Flávio também atuou como advogado do cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela morte de Ana Clara Machado, de cinco anos.

Em 2 de fevereiro de 2021, a menina brincava na entrada de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida por um tiro de fuzil durante um patrulhamento policial. Segundo a denúncia, Delaroli disparou contra uma área onde havia casas e espaços de convivência, assumindo o risco de matar. A acusação afirma que os tiros continuaram mesmo depois de pessoas avisarem que havia moradores no local.

A perícia encontrou estojos compatíveis com o fuzil utilizado pelo cabo. Também não identificou impactos de bala na viatura, resultado que contrariava o relato de que os policiais haviam sido atacados.

Em 2024, Flávio assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça para contestar a decisão que encaminhara Delaroli a júri popular. O STJ rejeitou o pedido da defesa.

O senador mantém inscrição suplementar na OAB do Distrito Federal desde 2021, ano em que abriu um escritório de advocacia em Brasília.

Ele também participou da defesa de quatro integrantes do Grupamento de Intervenção Tática denunciados pela morte de quatro pessoas no Morro do Vidigal, em janeiro de 2020. Conforme o Ministério Público, os policiais entraram em um imóvel e permaneceram ali por horas antes de atirar contra as vítimas, posicionadas abaixo deles e sem possibilidade de reação. Nesse processo, a defesa também buscou impedir o julgamento pelo tribunal do júri.

Medalha entregue dentro da prisão

As homenagens concedidas por Flávio na Alerj incluem o ex-policial Adriano Magalhães da Nóbrega, posteriormente apontado pelas autoridades como chefe da milícia de Rio das Pedras e do grupo de matadores conhecido como Escritório do Crime.

Em 2003, Nóbrega recebeu uma moção de louvor apresentada pelo então deputado. Dois anos depois, Flávio foi ao Batalhão Especial Prisional, em Benfica, para entregar pessoalmente a Medalha Tiradentes, maior condecoração da Assembleia. Na ocasião, o policial estava preso preventivamente havia mais de um ano, acusado de matar o guardador de carros Leandro dos Santos Silva.

Expulso da PM, Nóbrega permaneceu foragido até morrer em uma operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020. Em depoimento ao Ministério Público naquele ano, Flávio reconheceu que havia recebido aulas particulares de tiro do ex-oficial.

A mãe e a ex-mulher de Nóbrega também trabalharam no gabinete do parlamentar. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa foram nomeadas para cargos comissionados por indicação de Fabrício Queiroz.

Queiroz, homenageado por Flávio em 2003, foi posteriormente apontado pelas investigações como responsável pela operação de um suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários, conhecido como rachadinha.

Questionado em entrevistas eleitorais de 2026, Flávio afirmou que considerava Nóbrega um bom policial quando o condecorou e que não poderia ser responsabilizado pelo que ele faria posteriormente.

Homenageados ligados ao caso Marielle

Outro policial agraciado por Flávio foi Ronald Paulo Alves Pereira. A moção de louvor, aprovada em março de 2004, veio três meses depois de o então capitão passar a ser investigado sob suspeita de participação na Chacina da Via Show, que deixou cinco jovens mortos na Baixada Fluminense.

A justificativa da homenagem destacava sua atuação em uma operação no Complexo da Maré na qual três pessoas morreram.

Anos depois, as investigações do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes identificaram Ronald como dirigente do Escritório do Crime, ao lado de Nóbrega. Em março de 2026, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 56 anos de prisão por sua participação no planejamento do monitoramento e da execução das vítimas.

Uma reportagem da revista Piauí revelou ainda que, em 2023, o gabinete de Flávio destinou R$ 200 mil de uma emenda parlamentar a um projeto esportivo na Taquara, na zona oeste carioca.

O pedido havia sido encaminhado por Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, policial militar reformado e assessor de Domingos Brazão. Nas mensagens obtidas pela Polícia Federal, ele se referia a Flávio como seu senador. Peixe foi condenado a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa armada envolvida no assassinato de Marielle.

Declaração após a execução de Patrícia Acioli

A reação de Flávio ao assassinato da juíza Patrícia Acioli também provocou controvérsia. A magistrada foi morta com 21 tiros na porta de casa, em Niterói, em agosto de 2011. O crime foi organizado e executado por policiais militares após decisões judiciais contra agentes acusados de simular confrontos para encobrir mortes.

Poucas horas depois, o então deputado publicou uma mensagem na qual atribuiu parte da hostilidade contra a juíza à maneira como ela tratava policiais durante as audiências. A manifestação foi repudiada por entidades da magistratura.

Na Alerj, Flávio também se opôs à CPI das Milícias, instalada em 2008 depois que jornalistas foram sequestrados e torturados na favela do Batan. Em pronunciamentos, argumentou contra a estigmatização desses grupos e afirmou que organizações formadas por policiais e bombeiros proporcionavam segurança a bairros da zona oeste.

Dois homens que trabalharam em sua segurança pessoal, os irmãos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, foram presos em 2018 na Operação Quarto Elemento. Eles foram denunciados por extorsão e vínculos com grupos armados. Uma irmã dos dois também ocupou um cargo no gabinete de Flávio.

Levantamento identificou 23 homenageados que responderam a processos

Uma pesquisa da revista Piauí nos registros da Alerj, abrangendo os anos de 2003 a 2018, identificou pelo menos 23 integrantes das forças de segurança homenageados por Flávio que se tornaram réus ou receberam condenações. Os processos envolviam crimes como homicídio, corrupção e desvio de recursos públicos.

Entre eles está Edson Raimundo dos Santos, que recebeu uma moção de louvor em 2008, quando era capitão do Bope. Mais tarde, no comando da UPP da Rocinha, foi responsabilizado pela tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza. Sua condenação foi de 13 anos e sete meses de prisão.

A relação inclui ainda o tenente-coronel da reserva do Exército Lício Maciel, que recebeu a Medalha Tiradentes em 2005. O Ministério Público Federal o denunciou por sequestros e crimes contra a humanidade durante a repressão à Guerrilha do Araguaia.

O que diz Flávio Bolsonaro

Sobre a votação de 2009, a assessoria do senador afirmou à Folha de S.Paulo que ele buscava preservar as garantias constitucionais de defesa e de presunção de inocência. Segundo a equipe, essa posição não significa tolerância à violência. A campanha também citou a proposta de uma Central da Mulher, com atendimento jurídico e psicológico.

Ao responder sobre as condecorações, Flávio tem afirmado que homenageou centenas de profissionais da segurança e que cada um deve responder individualmente pelos crimes que cometer.

Nas reportagens originais sobre sua atuação como advogado de policiais acusados de homicídio, a assessoria do senador e os escritórios envolvidos não apresentaram resposta aos questionamentos.

Flávio Bolsonaro defendeu policial acusado de matar menina e homenageou agentes envolvidos em crimes

Trajetória do senador inclui voto contra restrição de armas a policiais denunciados por violência doméstica e condecorações a homens posteriormente associados a milícias.

O senador Flávio Bolsonaro (PL), candidato à Presidência, reúne em sua trajetória a defesa judicial de policiais acusados de homicídio, homenagens a agentes investigados e posições contrárias a medidas de controle das forças de segurança. Entre os episódios está seu voto, em 2009, contra uma proposta que permitia recolher armas de policiais denunciados por violência doméstica.

Naquele ano, quando era deputado estadual pelo PP, Flávio foi o único parlamentar da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro a rejeitar o projeto de Inês Pandeló (PT). Fundamentada na Lei Maria da Penha, a proposta autorizava a retenção preventiva do armamento institucional de servidores da segurança denunciados por agressões contra mulheres. Aprovada e sancionada, tornou-se a Lei Estadual 5.402/2009.

Ao explicar seu voto, Flávio argumentou que policiais poderiam perder a arma de trabalho por acusações de esposas ou ex-esposas sem terem assegurados seus direitos de defesa. Sustentou que militares frequentemente não recebiam as garantias da presunção de inocência e do contraditório.

Na campanha de 2026, o senador apresenta propostas de aumento das penas para agressores e de monitoramento eletrônico de autores de violência doméstica.

A defesa no caso Ana Clara

Flávio também atuou como advogado do cabo da Polícia Militar Bruno Dias Delaroli, denunciado pelo Ministério Público do Rio de Janeiro pela morte de Ana Clara Machado, de cinco anos.

Em 2 de fevereiro de 2021, a menina brincava na entrada de casa, na comunidade Monan Pequeno, em Niterói, quando foi atingida por um tiro de fuzil durante um patrulhamento policial. Segundo a denúncia, Delaroli disparou contra uma área onde havia casas e espaços de convivência, assumindo o risco de matar. A acusação afirma que os tiros continuaram mesmo depois de pessoas avisarem que havia moradores no local.

A perícia encontrou estojos compatíveis com o fuzil utilizado pelo cabo. Também não identificou impactos de bala na viatura, resultado que contrariava o relato de que os policiais haviam sido atacados.

Em 2024, Flávio assinou um recurso ao Superior Tribunal de Justiça para contestar a decisão que encaminhara Delaroli a júri popular. O STJ rejeitou o pedido da defesa.

O senador mantém inscrição suplementar na OAB do Distrito Federal desde 2021, ano em que abriu um escritório de advocacia em Brasília.

Ele também participou da defesa de quatro integrantes do Grupamento de Intervenção Tática denunciados pela morte de quatro pessoas no Morro do Vidigal, em janeiro de 2020. Conforme o Ministério Público, os policiais entraram em um imóvel e permaneceram ali por horas antes de atirar contra as vítimas, posicionadas abaixo deles e sem possibilidade de reação. Nesse processo, a defesa também buscou impedir o julgamento pelo tribunal do júri.

Medalha entregue dentro da prisão

As homenagens concedidas por Flávio na Alerj incluem o ex-policial Adriano Magalhães da Nóbrega, posteriormente apontado pelas autoridades como chefe da milícia de Rio das Pedras e do grupo de matadores conhecido como Escritório do Crime.

Em 2003, Nóbrega recebeu uma moção de louvor apresentada pelo então deputado. Dois anos depois, Flávio foi ao Batalhão Especial Prisional, em Benfica, para entregar pessoalmente a Medalha Tiradentes, maior condecoração da Assembleia. Na ocasião, o policial estava preso preventivamente havia mais de um ano, acusado de matar o guardador de carros Leandro dos Santos Silva.

Expulso da PM, Nóbrega permaneceu foragido até morrer em uma operação policial na Bahia, em fevereiro de 2020. Em depoimento ao Ministério Público naquele ano, Flávio reconheceu que havia recebido aulas particulares de tiro do ex-oficial.

A mãe e a ex-mulher de Nóbrega também trabalharam no gabinete do parlamentar. Raimunda Veras Magalhães e Danielle Mendonça da Costa foram nomeadas para cargos comissionados por indicação de Fabrício Queiroz.

Queiroz, homenageado por Flávio em 2003, foi posteriormente apontado pelas investigações como responsável pela operação de um suposto esquema de recolhimento de parte dos salários de funcionários, conhecido como rachadinha.

Questionado em entrevistas eleitorais de 2026, Flávio afirmou que considerava Nóbrega um bom policial quando o condecorou e que não poderia ser responsabilizado pelo que ele faria posteriormente.

Homenageados ligados ao caso Marielle

Outro policial agraciado por Flávio foi Ronald Paulo Alves Pereira. A moção de louvor, aprovada em março de 2004, veio três meses depois de o então capitão passar a ser investigado sob suspeita de participação na Chacina da Via Show, que deixou cinco jovens mortos na Baixada Fluminense.

A justificativa da homenagem destacava sua atuação em uma operação no Complexo da Maré na qual três pessoas morreram.

Anos depois, as investigações do assassinato de Marielle Franco e Anderson Gomes identificaram Ronald como dirigente do Escritório do Crime, ao lado de Nóbrega. Em março de 2026, ele foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal a 56 anos de prisão por sua participação no planejamento do monitoramento e da execução das vítimas.

Uma reportagem da revista Piauí revelou ainda que, em 2023, o gabinete de Flávio destinou R$ 200 mil de uma emenda parlamentar a um projeto esportivo na Taquara, na zona oeste carioca.

O pedido havia sido encaminhado por Robson Calixto Fonseca, conhecido como Peixe, policial militar reformado e assessor de Domingos Brazão. Nas mensagens obtidas pela Polícia Federal, ele se referia a Flávio como seu senador. Peixe foi condenado a nove anos de prisão por integrar a organização criminosa armada envolvida no assassinato de Marielle.

Declaração após a execução de Patrícia Acioli

A reação de Flávio ao assassinato da juíza Patrícia Acioli também provocou controvérsia. A magistrada foi morta com 21 tiros na porta de casa, em Niterói, em agosto de 2011. O crime foi organizado e executado por policiais militares após decisões judiciais contra agentes acusados de simular confrontos para encobrir mortes.

Poucas horas depois, o então deputado publicou uma mensagem na qual atribuiu parte da hostilidade contra a juíza à maneira como ela tratava policiais durante as audiências. A manifestação foi repudiada por entidades da magistratura.

Na Alerj, Flávio também se opôs à CPI das Milícias, instalada em 2008 depois que jornalistas foram sequestrados e torturados na favela do Batan. Em pronunciamentos, argumentou contra a estigmatização desses grupos e afirmou que organizações formadas por policiais e bombeiros proporcionavam segurança a bairros da zona oeste.

Dois homens que trabalharam em sua segurança pessoal, os irmãos Alan e Alex Rodrigues Oliveira, foram presos em 2018 na Operação Quarto Elemento. Eles foram denunciados por extorsão e vínculos com grupos armados. Uma irmã dos dois também ocupou um cargo no gabinete de Flávio.

Levantamento identificou 23 homenageados que responderam a processos

Uma pesquisa da revista Piauí nos registros da Alerj, abrangendo os anos de 2003 a 2018, identificou pelo menos 23 integrantes das forças de segurança homenageados por Flávio que se tornaram réus ou receberam condenações. Os processos envolviam crimes como homicídio, corrupção e desvio de recursos públicos.

Entre eles está Edson Raimundo dos Santos, que recebeu uma moção de louvor em 2008, quando era capitão do Bope. Mais tarde, no comando da UPP da Rocinha, foi responsabilizado pela tortura e morte do ajudante de pedreiro Amarildo de Souza. Sua condenação foi de 13 anos e sete meses de prisão.

A relação inclui ainda o tenente-coronel da reserva do Exército Lício Maciel, que recebeu a Medalha Tiradentes em 2005. O Ministério Público Federal o denunciou por sequestros e crimes contra a humanidade durante a repressão à Guerrilha do Araguaia.

O que diz Flávio Bolsonaro

Sobre a votação de 2009, a assessoria do senador afirmou à Folha de S.Paulo que ele buscava preservar as garantias constitucionais de defesa e de presunção de inocência. Segundo a equipe, essa posição não significa tolerância à violência. A campanha também citou a proposta de uma Central da Mulher, com atendimento jurídico e psicológico.

Ao responder sobre as condecorações, Flávio tem afirmado que homenageou centenas de profissionais da segurança e que cada um deve responder individualmente pelos crimes que cometer.

Nas reportagens originais sobre sua atuação como advogado de policiais acusados de homicídio, a assessoria do senador e os escritórios envolvidos não apresentaram resposta aos questionamentos.

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